Há livros que nos tocam. O
livro negro das cores é, sem sombra de dúvida, um deles.
Ler este livro é lê-lo com medo, desconhecimento e uma tentativa votada ao insucesso. Foi à luz desse perigo que resolvi explorá-lo com os 22 alunos da Turma 11 A, 3.º Ano, Pólo 2 do Agrupamento Vertical de Escolas de Macedo de Cavaleiros.

- Desenvolvi esta tutoria com recurso ao computador e à Internet, onde pesquisei algumas informações e encontrei um clip de vídeo no site www.esec.pt/esec-tv, onde o tradutor Miguel Gouveia explica de forma pormenorizada para algumas crianças o conteúdo deste livro, a sua história e o prémio que lhe foi atribuído.
Foi com o recurso livro e com este suporte digital que me propus trabalhar os descritores.
- Prestar atenção ao que ouve de modo a tornar possível
- identificar, num texto poético, sabores, formas, cheiros e sensações transmitidas pelas cores que nos rodeiam;
- formular possíveis hipóteses sobre o conteúdo do livro “O livro negro das cores”, Cottin e Rosana Faría, Editora Bruaá;
- explorar oralmente o livro apresentado;
- aprender a respeitar a diferença, a deficiência(visual ou outra);
- tomar conhecimento do alfabeto em Braille.
- Escrita poética: poemas “sentidos”:
- tentar descrever as cores através dos sentidos;
- escolher um sentimento como o amor, a raiva, a inveja, a amizade…e caracterizá-lo através dos sentidos.
Todos os alunos mostraram interesse em tomar contacto com o livro. E fizeram-no com muita curiosidade! Apreciaram o brilho e o contraste das imagens e "passearam" os dedos pela escrita em braille.

O livro negro das cores é um livro belo. É diferente da esmagadora maioria dos livros ilustrados que pertencem à nossa esfera de textos.
Acompanhando um protagonista ausente, que imaginamos como um jovem cego que descreve a sua percepção multi-sensorial das cores, tecem-se páginas em que é a linguagem, despertando o olfacto, o toque e o sabor, que nos dá acesso às cores que conhecemos do espectro humano.
As imagens não se afastam em demasia do que o texto cumpre, elaborando-se complexas texturas que quererão transmitir-nos as sensações anexas às cores respectivas. A impressão a dois pretos, ou melhor, a um tratamento diferenciado nas linhas que compõem o relevo, leva a que nos obrigue, aos leitores que vêem, a balançar o livro para ver o brilho e o contraste. Os leitores cegos passearão os dedos para as interpretar. Este livro devolve-nos, parcialmente, ou abre-nos a perspectiva, à compreensão da situação dos cegos, mas nunca, jamais, essa mesma experiência.
- Ao longo da aula a concentração foi evidente e foi com empenho que realizaram as actividades propostas na folha de trabalho.
- Aqui ficam alguns testemunhos escritos.
Se, para o Tomás (personagem principal e única do texto):

“O
vermelho é ácido como o morango e doce como uma melancia, mas doí quando aparece no joelho arranhado”
O amarelo é amargo como o limão (Pedro Curralo);
O verde lembra-me a relva e a sua beleza (Patrícia);
O castanho é doce como o chocolate (Helena);
O azul é lindo como as ondas do mar (Miguel);
O preto lembra a escuridão da noite (Jéssica).
Para o Tomás
"O
vermelho sabe a cerejas.
Tem o som das sirenes dos bombeiros.
É quente como o fogo
E cheira como uma rosa. "
Mas, para a Beatriz
O amarelo sabe a banana
Tem o som dos passarinhos.
É quente como o sol
E cheira a alegria.
Já para o Gonçalo
O verde é uma cor feliz
Interessante e cativante
Linda e importante
Feliz como o petiz
Para a Margarida
O preto é o rei das cores
É a escuridão da noite
Negro como carvão
E feio como um caixão.
Os alunos foram incentivados para misturar cores com emoções. E a escrita poética foi aparecendo com alguma dificuldade à mistura:
O azul é a inveja de quem ama (Diana);
A felicidade é colorida como o arco-íris (Gonçalo);
O amor é vermelho como uma rosa (Miguel);
O carinho é verde como a relva na Primavera (Pedro Curralo);
A alegria é amarela como as férias de Verão (Tiago).

No final foi feita a auto-avaliação, podendo concluir-se que:
- Todos os alunos acharam este livro interessante.
- Aprenderam que as cores podem transmitir sensações.
- Esta aula ensinou-lhes a pensar mais no respeito pela diferença.
- Sentiram algumas dificuldades na realização das actividades propostas na ficha de verificação.
- Gostaram de participar na aula.
- Não encontraram nada neste livro que não lhes tenha agradado.
- O que mais lhes chamou a atenção foi o livro, o filme e a escrita criativa.
Para terminar, uma nota pessoal sobre o livro:
Na minha opinião, o texto está excelente, com um sentido estético muito particular, conseguindo falar de uma questão tão difícil para os cegos como é a questão da cor. Mas ao nível das ilustrações, há páginas que resultam muitíssimo bem, como é o caso das que fazem alusão à água, à chuva, à relva e aos cabelos. Os cegos sentem as texturas e com a ajuda do texto identificam facilmente as imagens.
Contudo, e finalmente, o livro das duas autoras venezuelanas é um livro que serve para ampliar os nossos horizontes de experiência e a nossa compreensão, quer do mundo quer da questão do Outro.
Haverá maior galardão num livro?
Formando do 2.º Ano : A. Alfredo
Escola E B 1 Pólo 2 do Agrupamento Vertical de Escolas de Macedo de Cavaleiros